terça-feira, 12 de abril de 2016

Trecho de e-mail enviado aos professores-orientadores relativo ao eventual tema a ser abordado no artigo

De antemão, entretanto, deixo algumas considerações sobre o tema que tenho pretendido abordar no meu texto para a disciplina. Ano passado, na cadeira de Teorias e Estéticas Contemporâneas do Cinema e Audiovisual II, com o professor Yuri Firmeza, tivemos uma aula com foco no capítulo "Panoptismo", encontrado no livro Vigiar e Punir, de Michel Foucault. O assunto me chamou atenção pela forma com que trata da maneira como os corpos se dispõem no espaço social, relativamente tanto à geografia de distribuição, como ao comportamento dos sujeitos em si. Ao mesmo tempo, esbarrei com um livro chamado A Câmara Clara, de Roland Barthes, na biblioteca. Lendo o livro, uma passagem em particular me chamou a atenção. Barthes falava, entre outras coisas, dos três indivíduos envolvidos no ato fotográfico: o espectador, o fotógrafo e o fotografado. Dizia ele que o fotógrafo acaba por se fundir, também, como espectador, pois o ato de fotografar toma apenas alguns segundos, fisicamente falando, e, em seguida, capturada a imagem, o fotografo passa, pois, e ser um espectador do resultado que ele mesmo obteve. No que se refere ao objeto fotografado, sobretudo em se tratando de indivíduos (e foi o que me chamou a atenção, pela sutil conexão que consegui fazer com o texto de Foucault), Barthes fala da impossibilidade do indivíduo de se portar com naturalidade a partir do momento em que toma consciência da objetiva. Parafraseando-o: "Ao perceber a objetiva, eu tento, sem sucesso, imitar a mim mesmo. Não consigo."
Passei, então, a refletir sobre como o olho do outro tem potencial para influenciar no meu comportamento, seja através da constante vigilância advinda de um panóptico, seja por meio da objetiva de um fotógrafo, pela câmera de segurança num shopping ou mesmo pela pressuposição da presença desses olhos, que não precisam, de fato, estarem lá para que meus atos sejam engessados, de certo modo. No mesmo semestre, outra disciplina, chamada Oficina de Fotografia e Iluminação I, pedia como trabalho final um ensaio videográfico.
Partindo das considerações anteriormente colocadas e do filme 20 Cigarros, de James Benning, escrevi um roteiro que, resumidamente, tinha a seguinte sinopse: "A personagem de um filme nota a câmera que a 'vigia' e, por conta disso, não consegue mais agir com naturalidade." De maneira um tanto metafórica, pretendi abordar o tema do "olho sobre si" num ensaio de vídeo, onde a câmera (sob o ponto de vista do espectador que assiste a) é também uma personagem, que "persegue" o protagonista: este não consegue mais realizar atos tidos como imorais, como se masturbar, sem se incomodar com a câmera, mas também perde a capacidade de cumprir gestos simples, o que o força, por exemplo, a ter etiqueta na mesa de jantar. Com o tempo, o protagonista deixa de encarar a câmera, mas continua a agir conforme o olhar do espectador-câmera, ao longo do filme, o chamou a agir. Isto é, apesar de "parar de perceber a câmera", ele continua a agir como ela quer, pois prevê seu julgamento.
O ensaio videográfico, entretanto, não pôde ser desenvolvido, entre outras coisas, porque não havia muito tempo para pesquisa, o que fez com que tivéssemos que filmar outra coisa. Apesar do trabalho não ter sido desenvolvido como pretendi, guardei as poucas considerações a que cheguei para aprofundá-las em outro momento, quem sabe, quando eu puder retomar como filme.
Por coincidência, a disciplina de Metodologia de Pesquisa sugere um processo que me parece muito interessante para retomar esse assunto. Por isso, por ora, estou apostando nessa relação entre câmera e indivíduo, pretendendo enxergar como isso pode se dar no cinema, tanto na relação da câmera com o ator, como em relação aos personagens (não-atores) do documentário e afins. Enfim, por mais que as coisas ainda estejam um tanto desconexas, acredito que dá para entender mais ou menos o caminho que quero tomar.

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