quarta-feira, 13 de abril de 2016

Considerações gerais sobre o artigo "Descer ao Campo", de Yves Winkin

Sobre o Título 

Descer ao campo significa, no contexto, ir ao lugar onde se quer iniciar um processo de pesquisa, para coleta de dados etnográficos em relação aos quais se possa fazer apontamentos, chegar a certas conclusões. O pesquisador, para além das referências bibliográficas (que, de certo modo, também fazem parte do campo para onde se desce), deve ir ao (a um) lugar em que possa não apenas reafirmar o que suas fontes dizem, mas também, ele pprio, a partir do choque entre o que lê e o que nota no sítio de investigação, desenvolver suas pprias teorias, trazer suas pprias questões. 

Exigências do Trabalho 

Segundo Winkin, algumas exigências nos perpassam a partir do momento em que iniciamos um processo de pesquisa. Entre as quais: 
Quando nos iniciamos no procedimento etnográfico dentro de nossa ppria sociedade, é preferível começar por um campo cujo limites correspondam aos de um lugar público ou semipúblico, diz. Não apenas lugares que sejam públicos, mas que, ao mesmo tempo, sejam ambientes cotidianos, simples, e nos quais o pesquisador/etnógrafo sinta-se confortável para se inserir e (buscar) entender os movimentos, as repetições, como também suas irregularidades, no sentido de perceber gestos que são peculiares ao pprio campo, que fogem ao seu padrão de repetição, por assim dizer. É errôneo crê, nesse sentido, que os locais mais apropriados para tais procedimentos sejam aqueles cujo senso comum, pela divulgação, a priori, de certos estereótipos, aponte como desregrados em relação à sociedade como um todo, isto é, aqueles ambientes dentro dos quais se vê uma total fuga aos costumes, tendo a mídia grande influência na construção de determinados "saberes" sobre. Exemplos disso são ambiências consideradas imorais, como bares, boates, festas, ou que simplesmente estejam à margem do corpo social, como as favelas e periferias, onde comumente procura-se conclusões de cunho espetacularizante, chocante etc.  
É preciso que o pesquisador/etnógrafo possa ser sistematizável ao lugar sobre o qual quer pesquisar, precisamente devido à necessidade de se colocar ao mesmo tempo no ponto de vista dos sujeitos que pertencem àquele sítio, isto é, conseguir, ao estar  no campo escolhido, pensar como seus membros, ser um de seus membros. É possível, assim, por via da periodicidade, construir uma espécie de mapa, topograficamente falando, cuja viabilidade se dá devido ao estudo dos limites de uma zona, tanto no sentido geográfico, como no sociológico, antropológico. Uma área aberta, por exemplo: onde ela termina? É essencial, para além de demarcar fisicamente esse local, entender quais seus limites, saber o que está dentro-de e o fora-de. Isto é, para dizer onde começa e termina, fisicamente, é preciso compreender em que momento um indivíduo atravessa esse limite e seu comportamento passa a ser, ora o de um membro que está dentro-de, ora o de um membro que está fora-de, no que concerne a este lugar aberto. Se não há delimitação física, como compreender esses limites: por meio desses mapas. 
A partir do momento em que está fazendo um trabalho de campo, é necessário obrigar-se constantemente a fazer ida-e-volta entre a prática que estão vivendo e a teoria que lerão paralelamente, pois corre-se o risco de se tornar tão intrinsecamente ligado ao recinto que, em dado momento, não será mais possível ter pleno controle sobre os apontamentos que se faz. Saramago diz que "é preciso sair da ilha para ver a ilha: não nos vemos se não sairmos de nós". Para o pesquisador, é necessário um equilíbrio entre o entrar e o sair da ilha, pois este precisa se inserir numa ilha que, a princípio, não é totalmente sua, até o ponto de se sentir como parte dela; em seguida, porém, é preciso sair da ilha: para ver a ilha. Há de haver uma moderação que vague nesses dois âmbitos. Segundo Wikin, a inserção por demais "aprofundada" no campo de pesquisa pode acarretar, ao invés de dados etnográficos, meras descrições gratuitas, como uma espécie de diário que apenas relata, não diz nada. 

O Diário 

É, entretanto, de elevada importância a existência de um diário. Neste, para Winkin, perpassam as funções catártica, empírica e reflexiva/analítica.  
A função catártica diz respeito precisamente à entrega do pesquisador. Ele irá escrever comentários tanto baseados nas leituras que tem feito, "comparando-as" com os textos que tem lido, como fará comentários de cunho mais informal/pessoal, que entretanto trazem certa relevância ao processo.  
A função empírica diz respeito à pesquisa como experiência, tem a ver com o contato com dadas sensações. O etnógrafo anota dados que, aparentemente, ou de forma imediata, não têm tanta importância, ligação direta com a pesquisa, mas, de algum modo, lhe chamam a atenção. Pode-se descobrir, a posteriori, alguma funcionalidade para o que foi anotado.  
A terceira função, a que Winkin denomina reflexiva/analítica diz respeito às notas feitas que têm um quê mais teórico em comparação com as demais. Na verdade, a função reflexiva, de certo modo, sintetiza, unifica as duas anteriores, no sentido de que esta é fruto da "dialética" que se dá tanto por meio das conclusões feitas na confrontação entre suas leituras e o que ele (pesquisador) nota no campo com potencial para reafirmar essas leituras  e suas anotações pessoais/informais, como pelo que resulta de um certo empirismo e seus eventuais comentários "desconexos".  
Por fim, é indicado que se leia e releia o diário, sucessivamente. Isso há de trazer uma certa ordem ao caos das anotações, além de que o pesquisar poderá fazer um filtro onde o que é de fato relevante será levado em consideração: o refinamento das ideias através da revisão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário